Não são de hoje os sinais de que a economia brasileira não está em um bom momento e, pelo menos no caso da indústria, beira novamente a recessão.

Os dados divulgados nesta sexta-feira (26/04) pelo Banco Central mostram que este quadro é indissociável da evolução recente do crédito, que apresenta clara desaceleração neste início de 2019. Em boa medida, isso se deve aos juros dos empréstimos que pararam de ceder e ensaiam nova alta.

No primeiro trimestre de 2019, as concessões totais de crédito, já corrigidas pela inflação segundo o IPCA, cresceram menos: +9,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, puxadas pelas operações com recursos livres, como tem sido a regra da atual reativação do mercado de crédito. Os empréstimos oficiais pouco saíram do lugar (só +2,4% em jan-mar).

Este resultado implica uma perda de ânimo nas condições de financiamento tanto para as famílias como para as empresas, como mostram as variações interanuais abaixo. O significado disso, porém, é mais grave para o segmento corporativo, que só mais recentemente vinha verificando melhora de seu financiamento.

• Concessões reais totais: +13,8% no 3º trim/18; +12,6% no 4º trim/18 e +9,5% no 1º trim/19;

• Concessões reais às empresas: +18,6%; +12,1% e +9,2%, respectivamente;

• Concessões reais às famílias: +10,4%; +12,9% e +9,8%, respectivamente.

Quem sofreu um notável revés foram os empréstimos corporativos com condições livremente pactuadas pelas partes, cujo dinamismo caiu pela metade, ao recuar, em termos reais, de +20% no 3º trim/18 para +9,6% no 1º trim/19 frente ao mesmo período do ano anterior.

Reduções mais moderadas das taxas de juros destes empréstimos ajudam a explicar esta tendência do crédito livre às empresas. Do 1º trim/18 para o 1º trim/19, as taxas médias nominais passaram de 21,9% ao ano para 20% a.a. Isto é, recuaram apenas 9% enquanto a inadimplência dessas operações caiu 40%, de 4,7% da carteira para 2,8% no mesmo período.

Já não fosse muito insuficiente levar quase um ano para reduzir tão pouco o custo do crédito às empresas, houve recentemente novo movimento de alta dos juros médios neste segmento, que passaram de 18,8% a.a. em dez/18 para 19,9% a.a. em mar/19. Algo semelhante também ocorreu com o crédito livre às famílias, com o agravante de que seus níveis de juros são muito mais elevados: 48,9% a.a. em dez/18 e 53,7% a.a. em mar/19.

Esta é uma péssima notícia para as famílias, mas sobretudo para as empresas que ainda lutam para se livrar de dívidas antigas em atraso e para assegurar a liquidez necessária para a normalização de suas atividades.

Embora a perda de fôlego do financiamento acabe sendo um problema para o conjunto das empresas, os dados do Banco Central sobre a evolução dos estoques, que é uma medida mais de tendência, permite avaliar em qual setor a situação está pior. No caso, esta posição cabe à indústria, para quem o estoque financiamento encolheu 3,6% de dez/18 a mar/19, o que certamente faz parte da fase recessiva em que o setor se encontra desde o final do ano passado.

Para os demais setores, o resultado foi positivo para a agropecuária, com variação de seu estoque de crédito +1,8%, e negativo no caso dos serviços, embora de modo menos acentuado do que na indústria: -1,7% entre dez/18 e mar/19.

Os dados de crédito apresentados pelo Banco Central hoje registraram que o saldo das operações alcançou R$ 3,2 trilhões em março, crescimento de 0,7% no mês. O saldo de crédito a pessoas físicas cresceu 0,6% na comparação com o mês anterior (R$ 1,8 trilhão), e na carteira de pessoas jurídicas houve expansão de 0,8%, alcançando R$ 1,4 trilhão. Na comparação frente ao mesmo mês do ano anterior, o saldo total de crédito apresentou incremento de 5,7%.

A carteira de crédito com recursos livres registrou R$ 1,777 bilhões, incremento de 1,4% em relação ao mês anterior e crescimento de 11,5% quando comparado com março de 2018. A parcela destas operações realizadas junto a pessoas físicas ficou em R$ 970,5 bilhões, aferindo incremento de 0,9% em relação ao mês imediatamente anterior e crescimento de 12,6% quando comparado com o mês de março de 2018. Para as operações junto a pessoas jurídicas aferiu-se R$ 806,7 bilhões, variação positiva de 1,9% em relação ao mês anterior e incremento de 10,3% frente ao mesmo período de 2018.

O estoque de crédito com recursos direcionados registrou valor de R$ 1,489 bilhões para março, em termos nominais, indicando variação negativa de 0,5% frente a março de 2018 e estabilidade quando comparado ao mês imediatamente anterior. O saldo referente as pessoas físicas registrado foi de R$ 857,2 bilhões, incremento de 5,5% quando comparado ao mês de março do ano passado. O saldo relativo a pessoas jurídicas foi de R$ 632,7 bilhões, decréscimo de 7,7%.

Durante o mês de março de 2019 foram concedidos R$ 319,1 bilhões em novas operações de crédito, incremento de 5,1% frente ao montante de R$ 303,5 bilhões observado em março de 2018. Deste volume, R$ 297,9 bilhões foram originados de recursos livres e R$ 21,3 bilhões de recursos direcionados, o que representou, quando comparados aos mesmos meses do ano anterior, expansão de 6,5% para recursos livres e retração de 10,5% para recursos direcionados.

Para as concessões de crédito às pessoas físicas a partir de recursos livres, destacaram-se as operações de crédito rotativo (R$ 120,0 bilhões), cartão de crédito (R$ 94,5 bilhões), crédito não rotativo (R$ 42,8 bilhões), cheque especial (R$ 30,3 bilhões) e crédito pessoal (R$ 27,0 bilhões). Quanto as pessoas jurídicas, as principais modalidades ficaram para desconto de duplicatas (R$ 29,7 bilhões), cheque especial (R$ 17,4 bilhões), capital de giro (R$ 15,9 bilhões) e conta garantida (R$ 15,6 bilhões).

Nas novas concessões de crédito realizadas com recursos direcionados destacaram-se, para pessoas físicas, as modalidades de financiamento imobiliário (R$ 7,3 bilhões), crédito rural (R$ 4,3 bilhões), BNDES (R$ 830,0 milhões) e microcrédito (R$ 896,0 milhões). Para as empresas, as principais modalidades ficaram com o BNDES (R$ 3,9 bilhões), crédito rural (R$ 2,7 bilhões) o e financiamentos imobiliários (R$ 479 milhões).

Setores. Considerando o saldo total de crédito do sistema financeiro nacional por atividade econômica, a carteira de operações para o setor de serviços registrou valor de R$ 747,8 bilhões, o que significa um incremento nominal de 6,4% frente a março de 2018, e as maiores expansões ficaram em comércio geral – bens de capital (18,4%), serviços de informação e comunicação (17,5%), meios aquaviário e aéreo (16,0%), demais serviços prestados à empresas (12,5%), transporte (10,9%) e comércio geral – veículos e automotores (10,6%). Para o setor da indústria aferiu-se valor de R$ 640,4 bilhões, decréscimo de 4,2% frente ao mesmo mês do ano anterior. Por fim, o setor agropecuário registrou crédito de R$ 24,3 bilhões, incremento de 7,6%, em termos nominais, quando comparado ao registrado no mês de março de 2018.

Analisando a distribuição de crédito do sistema financeiro nacional por controle de capital, as instituições financeiras públicas emprestaram R$ 1,647 trilhões, representando 50,4% do volume de crédito, as instituições financeiras privadas nacionais concederam R$ 1,129 trilhão, representando 34,6%, e as instituições financeiras estrangeiras contribuíram com R$ 489,7 bilhões, equivalente a 15,0% do volume total de crédito no sistema financeiro.

Juros e Inadimplência. A taxa média de juros das operações contratadas em março registrou 25,3% a.a., aferindo incremento de 0,3 p.p. no mês e retração de 0,8 p.p. na comparação interanual. A elevação mensal refletiu o crescimento nas operações livres a pessoas físicas, de 0,6 p.p., cuja taxa média de juros registrou 53,7% a.a., com expansões em cheque especial (4,8 p.p.), crédito pessoal não consignado (1,2 p.p.), cartão de crédito rotativo (4 p.p.) e cartão de crédito parcelado (7,9 p.p.). No crédito livre a empresas, a taxa média das concessões permaneceu estável em 19,8% a.a.

Fonte:
IEDI – Desenvolvimento Industrial
(11) 5505-4922
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