Esta nova fase de retrocesso foi sentida pela grande maioria dos setores industriais

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A contar pelos dados já disponíveis, é possível que a recuperação industrial iniciada em 2017 venha a ser, na verdade, apenas um miniciclo de crescimento depois de um prolongado e agudo período de crise. Na melhor das perspectivas, teremos uma curva no formato de “W”, o que configuraria um processo de crescimento nada consistente.

Fatores de dinamismo que estiveram em operação em 2017, como a supersafra agrícola, liberação dos recursos do FGTS, forte desaceleração da inflação e queda da taxa básica de juros (Selic), bem como o maior dinamismo do comércio internacional, foram perdendo força a partir do ano passado sem que outros motores fossem reativados na intensidade necessária.

O declínio os juros dos empréstimos e a conseguinte normalização do quadro do crédito no país eram candidatos importantes para introduzir maior dinamismo ao sistema industrial em 2018. Na realidade, deixaram muito a desejar e arrefeceram a recomposição do consumo e do investimento.

Além disso, comprometeram o resultado da indústria no ano passado a greve dos caminhoneiros, a incerteza do processo político-eleitoral e a crise da Argentina, em meio à desaceleração do comércio mundial, e o próprio desemprego, que ainda se encontra em níveis recordes. Assim, a produção industrial saiu de uma alta de +5% no 4º trim/17 para uma queda de -1,2% no 4º trim/18 frente ao mesmo período do ano anterior.

Muitos destes aspectos desfavoráveis permanecem em tela em 2019. Como consequência, a indústria não só continuou no vermelho, como aprofundou seu declínio no 1º trimestre do ano: -2,2% frente ao 1º trim/18. Em relação ao final de 2018, o desempenho também foi negativo: -0,7% ante out-dez/18, já com os ajustes sazonais. Ou seja, as perdas estão presentes qualquer que seja o ângulo em que olhamos o setor.

A comparação do acumulado em doze meses frente ao mesmo período do ano anterior, que funciona como uma medida de tendência, não deixa dúvida sobre o movimento que a indústria assumiu nos últimos meses.

Em mar/19 voltamos à mesma situação em que estávamos em ago/17, registrando -0,1% em ambos os casos. A diferença é que naquele momento a indústria ganhava velocidade e, agora, vem perdendo cada vez mais dinamismo. Este é um claro sinal de retrocesso.

Ademais, não só a indústria parou de crescer, como a melhor marca atingida neste possível miniciclo foi de +3,9% nos doze meses encerrados em abr/18. Este é um ritmo que não chega a ser, nem de longe, aquele necessário a contrarrestar as quedas durante a crise, que chegaram a níveis próximos de -10% em 2016.

Diante destes resultados, a expectativa de crescimento da indústria vem sendo sistematicamente reduzida. Segundo a pesquisa Focus do Banco Central do final do ano passado, a produção física do setor cresceria+3,2% em 2019, patamar que agora, na avaliação de início de maio, não passaria de +1,8%.

Embora mais grave pra uns do que para outros, esta nova fase de retrocesso foi sentida pela grande maioria dos setores industriais. Dos 26 ramos acompanhados pelo IBGE, nada menos do que 21 deles (81%) ficaram no vermelho no 1º trim/19.

Pior ainda, metade deles (isto é, 13 ramos) acompanharam a indústria geral e também tiveram queda no 4º trim/18 e quase ¼ já acumula mais de dois trimestres consecutivos de retração. Frente a isso, é possível que estejamos em emio a mais uma etapa recessiva.

Dentre os grandes macrossetores industriais, todos mergulharam novamente no vermelho, mesmo o de bens de capital (-4,3% ante 1º trim/18), que ainda conseguia se manter na faixa positiva no final do ano passado. A seu turno, os bens de capital para a própria indústria, que cuja produção acompanha a evolução dos investimentos do setor, está de mal a pior, registrando queda tanto no 4º trim/18 (-5,5%) como no 1º trim/19 (-4,9%).

Bens de consumo duráveis (-3,5%) recuaram em função do setor automobilístico, cujas exportações estão sendo bastante prejudicadas pela crise argentina, mas também de móveis e eletrodomésticos, que refletem mais os entraves à reativação da demanda doméstica.

Bens intermediários (-2,0%) já vinham de um período baixíssimo crescimento na maior parte de 2018 e avançaram para o terreno negativo no 4º trim/18 (-1,6%) e agora no 1º trim/19 (-2%), sobretudo em função de segmentos associados a alimentos, têxteis, celulose e metalurgia.

Bens de consumo semi e não duráveis não caíram tanto quanto os demais macrossetores industriais, mas neste caso há um longo processo de estagnação que parece estar resvalando mais claramente para uma etapa recessiva. Do 3º trim/18 ao 1º trim/19 as quedas foram cada vez maiores: -0,2%, -0,8% e -1,4%, respectivamente.

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Fonte:
IEDI
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